Decidimos no decorrer da semana que
marcaríamos presença no tão falado baile de comemoração aos 20 anos do CTG
Tropeiros do Oeste, ficou decidido então, que iríamos todos pilchados na
indumentária gaúcha no baile temático crioulo.
Chegou o
sábado e o horário combinado para o baile era 22:30, a casa da Gabriela (Antonie)
ficou estabelecida como ponto de encontro, chegamos lá e percebemos que Lipi
trajava um pala de lã preto com franjas, que envolvia por completo o seu mini
corpo e se arrastava pelo chão ( herança do nono Natal, usado na Revolução
Farroupilha), curiosos tentamos saber o que estava oculto por baixo da longo e
volumo pala negro de Lipi. Distraído, ao olhar para o lado me percebo lívido ao
compreender que Gabriela saía de dentro do quarto revoltada e negando-se a
trajar o vestido previamente confeccionado para ela, toda gaudéria ela vinha
desfilando um modelito a lá Berenice Azambuja, seu look era composto por uma
calça de crivo na cor cru, confeccionada pelas artesãs caxambuenses, sobrepondo
um chiripa na cor burgundy (tendência do inverno 2012, tonalidade entre
vermelho e marrom), camisa de viscose branca, nos ombros um pala meia-espalda
de seda (dobrado sobre o ombro), uma bota garrão de proto, confeccionada por
seu pai Chico, e no cabelo todo volumoso por baby lise trazia uma majestosa
faixa Uruguaia.
Antonie
decidiu que iria assim e seu look então já não era mais surpresa para ninguém,
porém, a curiosidade ainda rondava sobre o mistério da roupa de Lipi, na calada
da noite chega então Bruna, que vestia uma capa de térmica bordada e toda
trabalhada em pet work (por causa de seu mini tamanho), tiramos algumas fotos
enquanto Gabriela ensaiava os passos finais de sua apresentação “show de
boleadeiras”, exatamente no canto da área de casa. Enquanto isso, Naira
arrumava a cuia na mateira campeira de Gabriela, e todos se entreolhavam
tentando decifrar a misteriosa roupagem de Lipi. Eu, todo pomposo, metido a gaúcho charqueador
estancieiro, usei uma bota cano sanfonado, bombacha sete panos favada, camisa
de tricoline ocre, guaiaca com dois bocós, espora chilena e um chapéu tapeado,
e obviamente, fui embarcado no meu Pingo encilhado que também carregava uma
mala de garupa recheada de mantimentos.
Chegando ao
CTG todos a caráter, menos Lipi, pois sua pilcha ainda era uma incógnita, adentramos
a porta principal todos bem vestidos já dançantes e tomando longas cuiadas de
um bom mate cevado. Deixei meu Pingo amarrado numa bela pastagem, e ao prostrar-me
diante da porta de entrada ouço uma exclamação em minha direção: eram as
recepcionistas Neuza Silva e Sueli Menoncim em êxtase gritando com veemência
que meu traje não era adequado para a ocasião, pois espora e chapéu não são
permitidos em festas e fandangos, decepcionado tirei os acessórios e entrei no
salão um pouco cabisbaixo.
Recepcionados pela rainha da festa da Melancia
(Nauana Marcante), que seguia a risca os ditames de Marina Paixão Cortês,
calçava uma sapatilha de 7 cm na cor bege, vestia uma saia com a barra no peito
do pé em corte godê, um casaquinho manga três quartos com decote pequeno que
não expunha seus ombros nem seios, todos acabados por passamanaria acetinada em
um tom acima da cor da indumentária, usava um fichu de fita rosáscea, e para
dar suporte a vestimenta, uma longa anágua branca e bombachinha, no cabelo uma
trança embutida decorada com flores naturais delicadamente retidas do canteiro
da paróquia, onde trabalha tia Maria. Nauana que recepcionava os convidados, estava confortavelmente sentada sobre uma
elegante charrete puxada por três pomposas éguas brilhosas, ali então, convidava
a todos para participar da festividade tradicionalista.
Entramos no salão e como de praxe arrancamos
olhares e cochichos, festividade adentro, Lipi avistou os peõezinhos mirins
deslizando na pista e imediatamente tirou seu pala de lã, deixando então
aparecer seu traje inspirado nas prendinhas mirins, foi então que chocadas as
pessoas perceberam o que ele vestia: sapatilha branca abotoada ao peito do pé,
meia curta com borda rendada, vestido na altura do joelho confeccionado por ele
mesmo em algodão com motivos de chita miúda, com detalhes em fita mimosa e
broderis, com a cabeça enfeitada por uma coroinha de flor de maçanilha. No
mesmo instante que ele se colocou a disposição para ser chamado a pista de
dança, foi chamado por um peão mirim a dançar uma milonga maragata.
O baile tem
início e uma banda caprichava nos gaitaços, não faltou bugio, milonga,
rancheira puladinha, chotes, vaneiras e chamamés, a pista de dança não ficou
vazia em música nenhuma, lá continuamos a dançar sem o baile todo. De repente
surge do além Tatiane Pomps, que trazia uma faca de prata de adaga talhada
herdada de seu avô Hélio Pompeu, iniciou um show de chula na pista central que
estremeceu os pilares de guajuvira do CTG, ovacionamos a mesma com uma salva de
palmas, eis que surge Gabriela enciumada e com toda sua técnica desmancha a
plateia em assovios e gritos com seu show de boleadeira. Lipi que também não
queria sair perdendo chama para pista Nauana e eu, e assim figuramos o xote das
duas damas que deixou emocionou por completo os presentes.
O baile foi
amornando e chegando ao fim, já na parte de fora, CAPA como é conhecido por
todos, surge com um misterioso pão, quis logo saber de onde o tão desejado pão
havia saído, quando percebi que tinha sido furtado de minha mala de garupa
listrada em azul e vermelho (em homenagem aos queridos maragatos e chimangos), avancei
ferozmente sobre o coitado, rolei no chão e embarreei toda minha bombacha, que
ficou impregnada de ciscos e pelos da égua que estavam na portaria do salão.
Todos
começaram a surgir com pães roubados da minha mala de garupa, um sacol bem
curtido, um queijo colonial, um pedaço de charque dessalgado e um pote de
feijão tropeiro. Gabriela esfomeada teve um surto e me insultou com palavras de
baixo calão, me desferiu pedregulhos na face pois queria ir para casa, estava com frio nos seios, que de forma
misteriosa saltaram para fora da camisa. Lipi logo pegou a charanga e levou
Antonie pra casa, eu fiquei aguardando o que aquela noite ainda nos
proporcionaria, voltei para o CTG em busca da minha mala de garupa ainda
recheada de condimentos, Valéria nos convidou para ir até sua casa onde havia
um molho de cachorro quente pronto.
Ao chegarmos em sua residência, com piscina acoplada e cascatas artificiais marcamos de nos encontrar na praça para
degustar a iguaria, embarcamos na charanga negra, Lipi, Angelo, eu e Tatiane,
que esfregou a adaga nas minha narina em tom de ameaça, a algazarra em frente a
mansão de Valéria foi tanta que que de repente salta Nilce (Revolts), mãe de Valéria nos injuriando ferozmente,
nos jogando objetos e lançando palavras no vento, a frente da casa limpou de
imediato e saltamos correndo , ouviram-se no meio deste conflito um codinome secreto:
NILCE REVOLTS. Então, corremos até a praça na madrugada, estacionamos os carros
e dançamos a polonese (onde todos em fila figuram a dança). CAPA surge
distribuindo os pães, porque segundo ele, o MOIO ia chegar. Capa dizia: -
Peguem os pão para comer com o MOIO de cachorro quente. As risadas foram tantas
que quando o MOIO chegou avançamos ferozmente e comemos tudo, dei um chute na
panela de pressão que acabou rolando praça abaixo e nunca mais foi vista. Nos
dirigimos todos para casa, desencilhei meu Pingo e dormi aconchegado em cima de
meu pelego macio.
Autor:
Matheus Casanova
Co-Autora:
Marina Cavalli
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