Depois de chegar em casa do último baile do ano de 2011, dormi até meio e acordei suado e com circunferências gigantescas de saliva viscosa no travesseiro. Estevan ainda lamentava a perda de seu vestido vinho que havia sido queimado por um pequeno descuido emocional na noite anterior, e eu ainda comemorava intimamente tal fato. Porém, nem imaginávamos o que a noite, ou o dia de domingo ainda nos reservava...
Era meio dia eu acordei seminu com a cueca emaranhada por entre as nádegas, mamãe tinha feito almoço, ela gritava batendo a pá da polenta na janela, pedaços do tenro creme amarelo saltavam pelo vão esculpido pela janela, mas mesmo assim ela não cessava. Corremos para a mesa antes que ela banhasse a casa toda com as gotículas pastosas do alimento, e estupefatos de fome atacamos a polenteira, queimei meus lábios e fiz bolhas na língua, como sou malévolo ao extremo e não saio perdendo sozinho, encostei a panela fervilhante na orelha de Estevan enquanto ele degustava a iguaria, arrebatato ele saiu correndo dolorido e abrasado para o porão chorando copiosamente, rindo da desgraça dele, comi todo o restante da polenta mesclando com algumas conchas de feijão gelado que estava armazenado na geladeira.
Estevan recuperado da queimadura, com a orelha enfaixada com babosa e banha de porco já estava ansioso para ir a Itá. Como de praxe, ele já estava iniciando seus ritos de beleza, neste dia porém, ele decidira fazer um penteado novo para a festa da virada. Analice nossa vizinha querida ajudou Estevan das 11:00 as 16:00 horas, ele permaneceu estático no passeio aqui na frente de casa durante todo este tempo, Analice fez rastafári com dreads de lã no cabelo rebelde do Estevan, incrementou o penteado com mexas de cabelo sintético e utilizou muito creme desembaraçante. Anterior a isso, Larissa Monica Bedin veio me buscar para irmos organizar os últimos detalhes da nossa virada de ano, no caminho quis jogar na mega-sena (a qual não ganhei), Litini (Lita do Pitini) também estava conosco. Organizamos tudo comprando pão integral, presunto, uma bandejinha de suspiro e uma de teta de nega, enchemos o tutu de gelo colocamos as champanhas gelar. Ao voltar para casa me surpreendo vendo que Estevan havia perdido todas as tranças do rastafári, Analice colocou um produto errado e as tranças não agüentaram tanta química. Estevan ficou triste e choroso, ajuntava as tranças do chão com uma expressão frustrada e desesperançosa. Num rompante, levantou-se e saiu desbaratinado a procura de algo que o alegrasse, encontrara então uma mini saia jeans branca com stretch e aplicações de strass nos bolsos traseiros, vestiu-a e saiu feliz e conformado, agora a procura de uma regatinha de malha lilás da mãe para dar uma cor a mais em seu look.
Já estávamos prontos quando chega Larisa Évilin Bedin com seu QQ tunado, acompanhada de Lita que encontrava-se sentada no banco da frente, Estevan logo tratou de armar um bafão, avançou e esgrenhou todo o cabelo de Lita, onde a Tere do Pitini havia feito uma trança embutida bem presa com gel, Lita ficou arrasada e se obrigou a passar para o banco de trás comigo. Partimos então para Chapecó, ao chegarmos lá no AP do André, Lita já foi atrás de outra carona, pois não iria dividir o espaço com o Estevan novamente. Problemas resolvidos fomos ao encontro das divas Bruna, Andreia e Nissana, quando chegamos para apanhá-las Nessana surgiu com sua saia mágica ,com bolsos estrategicamente ocultos e recheado de coisas que nem imaginávamos que caberia em um espaço tão pequeno. Sentada no meio fio, ela dedilhava um violão e cantarolava Ximbalaiê, Bruna fazia vocal e Andréia chorava de vergonha dentro do carro. Quando chegamos Estevan logo tacou o olho na Saia de Nessana envergando-se de inveja...neste momento iniciava-se a batalha, Estevan queria a todo custo a saia floral dela, mas convencido pelas outras meninas de que sua saia branca era mais apropriada, contentou-se e partimos para Itá, por volta das 20 horas chegamos no local, um toró de água caiu sobre aquele lugar nos deixando tristes, desmotivados e cabisbaixos por causa da chuva. Graças a Deus, por volta das 10 horas a chuva cessou, então não perdemos tempo e nos direcionamos até o palco na praça.
Aí então é que acontece a surpresa: nós tão bem vestidos e principalmente eu, todo vestido com peças finíssimas em linho branco percebo aquelas pessoas todas molhadas pela chuva que acabava de cair, os que estavam de branco jaziam encardidas pela lama, seus cabelos pingando nos vestidinhos alvos de malha que agora eram transparentes, seus pés enlameados com punhados de grama encardida, e as unhas que foram arrumadas especialmente para o dia, agora ostentavam uma aparência imunda e miserável. Confesso que fiquei um pouco decepcionado com tal cena dantesca, mas mesmo assim a festa tinha que continuar...
As pessoas permaneciam lá descompostas nós dançando felizes, quando as meninas saem pela busca sagrada de limão e sal, a fim de fazer a maldita tequila que deixou elas safadinhas ao extremo. Nos divertimos e dançamos ao som de um DJ, bebemos o tal “drink” do satan e a coisa ficou preta, nunca tinha visto essas meninas tão felizes e saltitantes, a noite foi passando e o meu tênis branco foi indo pro saco, eram quase 11 horas e o Show do Duble You tinha que começar. Estevan como é fã da banda acariciava seu próprio corpo cantando o Hit mais famoso “Please don’t GO”, repetindo incessantemente inúmeras vezes nos deixando nostálgicos.
O show se passa e eu e Larissa tínhamos que fazer um pipi, ao nos dirigimos até o pipi móvel encontramos um ser nada estranho no meio da multidão, com uma saia amarela bem curta, era ela, a nossa querida conterrânea Seca do Mandi, fizemos um gritedo e um escândalo, pois há muito tempo não a víamos. Logo tratei de pedir se sua mãe Maria estava bem, conversamos e matamos a saudade. A hora da virada já estava próxima, nos despedimos de Seca e partimos em direção ao povo, pois tínhamos que chegar sãos e salvos ao show pirotécnico com duração de 11 minutos. Peguei uma das 6 champanhas ganhadas da empresa em nossas cestas de fim ano, agitei estourando-a e lancei um chafariz em direção as pessoas, como se eu fosse uma figura rica e fina das cenas do filme TITANIC. A contagem para o final do ano começou, comemoramos gritando Feliz ano novo, regados de champanha e assistindo um show pirotécnico. A esta hora minha bela vestimenta, a saia de Nessana e as demais roupas já estavam todas um caco e fedidas, os cabelos das meninas então nem se falam...
No meio da galera permanecemos, por volta das 3 da manhã os cacos de garrafas tomavam conta do ambiente, percebo que o pézinho do Bebe Andreia estava cortado, quis levá-la até o Samu mas ela não quis, então peguei água da caixa de bebidas e lavei o pezinho dela. O show com um DJ local estava quase acabando, eram quase 4 horas da manhã e todos acabados e sujos voltamos para o carro, lá tratamos de comer os tetas de nega, o pão integral com presunto, etc...comemos feito boi na soga (como diz nossa querida Gabriela) e deitamos no chão lá fora mesmo.
Eis que num passe de mágica Estevan levanta-se, com sua saia branca já toda encardida e começa a coreografar a música “como uma Deusa” da Rosana, interpretando todos os altos e baixos da música e até as feições da cantora, que ele já decorou por ser muito fã. Assistindo ao grande espetáculo circense de Estevan, que gesticulava fazendo agudos e desfilando pela grama, percebemos que já era dia e estávamos clareando sobre a alvorada do amanhecer em Itá, todos imundos e sem noção. Então informei ao pessoal que tínhamos que ir até o mirante tirar fotos para registrar o melhor réveillon da nossa vida, organizamos as coisas e saímos em busca do mirante. Eram quase 7 horas da manhã e lá estávamos nós no morro do caracol (menos a Bruna que dormia bêbada e inconsciente há horas dentro do carro). Pudemos presenciar um lindo amanhecer no ponto mais alto da cidade, então nos despedimos do sol rumamos até nossas casas por uma longa estrada...quando chegamos em Chapecó na casa da Bruna, Estevan que até então fingia estar dormindo no carro, da um pulo certeiro e mortal e arranca a saia do corpo de Nissana se apoderando da mesma. Todos nós paramos e voltamos o olhar para ele, sem entender nada o observamos realizar seu sonho da noite. Ele tira sua saia branca e veste a saia florida, chorando de emoção começa a correr como uma gazela indomada pelas ruas e avenidas da cidade, saltitando por sobre os canteiros e cantando músicas de Nei Matogrosso ele sumiu pela escuridão da noite e nunca mais foi visto... esperamos seu retorno até as 10 horas da manhã, mas sem nenhum sucesso, organizamos nossas coisas e nos direcionamos até a maravilhosa cidade de Caxambu do Sul.
Esse foi nosso réveillon inesquecível, obrigado meus amigos por este momento que será eterno para mim! Um Grande beijo a todos!!!
Autor: Matheus Graboski Casanova
Co-Autora: Marina Cavalli
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